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Gonzaga, de pai pra filho / 2011 (120′) 

Direção: Breno Silveira 

Roteiro: Patrícia Andrade 

Produção: Eliana Soárez, Breno Silveira 

Direção de fotografia: Adrian Teijido 

Música: Bern Ceppas 

Elenco: Adélio Lima, Chambinho do Acordeon, Heslander Viera 

“Gonzaga, de pai pra filho” é um filme que à primeira vista pode parecer pertencer ao gênero dos musicais, mas na realidade as motivações de Bruno Silveira são mais complexas. Claro, há canções e trilhas, mas a música aqui serve mais à trama como geradora de uma atmosfera difusa e funcional, que retoma a história de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”.

Não se trata, porém, nem mesmo de uma biografia clássica, pois se é verdade que o conteúdo informativo dá a conhecer a trajetória deste músico de extraordinário sucesso no Brasil (200 discos gravados e 30 milhões de exemplares vendidos), Silveira esclarece desde o início sua perspectiva do filme, a do difícil vínculo entre Gonzaga e seu filho Gonzaguinha, também ele um reconhecido músico. Daí as intersecções de planos temporais em que a narrativa se articula, atribuíveis a três blocos principais (com pequenas inserções): um Gonzaguinha perplexo com a identidade paterna (e com a sua própria) re-escuta as gravações feitas anos antes por Luiz quando, anos depois, tiveram um papel decisivo na reconstrução de uma relação que quase nunca existiu e que foi marcada pelo abandono (muitas vezes emocional).

É este o ponto de partida para o relato em longos flashbacks que Luiz Gonzaga faz de sua própria vida (núcleo narrativo), onde Silveira adota – deslizando da memória subjetiva para um nível ao menos aparentemente objetivo, com o uso de materiais de arquivo – uma linguagem narrativa tradicional, que às vezes parece atravessar o roteiro. Há, portanto, o encontro de um pai e um filho, mas também de dois músicos, embora a música de Gonzaguinha (bem diferente da de Luiz) não seja tão abordada. É da música popular nordestina (com seus instrumentos e figurinos) que o filme abre uma porta, principalmente para um público que quer sair da fórmula tradicional: o Brasil é samba, bossa nova, MPB.

Decisiva nesse sentido é a escolha de Gonzaga em apresentar sua música ao Rio de Janeiro, onde os ritmos do baião eram desconhecidos e onde era comum que lhe pedissem para tocar tangos, valsas e fado: a cena em que, com uma montagem paralela, sua música conquista e leva o público irresistivelmente a dançar, tanto na rua quanto no estúdio de televisão de Ary Barroso (o autor de “Aquarela do Brasil”), mostra como Gonzaga soube dar voz à uma parte esquecida do Brasil. Palavra de Gonzaguinha. 

Marco Palazzini

Filme em  cartaz no dia 6 de  julho 2022 – Cineteca Milano Arlecchino.